segunda-feira, 18 de maio de 2020

ZÉZINHO FRANÇA



Verso sobre o inverso
de diversos versos
Verso sobre o verso
que me dá na telha ;
Verso sobre o verso
que me dá um nó.
Faço tudo inverso
do que me dá na telha
Faço todo verso
que me deixa só
Invento versos avessos
Inverto veros versos
Faço falsos versos
fatos falsos
Versos em dó.

Zézinho França
(no  Informativo do Grupo Literário Letraviva.)

quarta-feira, 6 de maio de 2020

CASTELO HANSSEN

  

Eu queria fazer uma poesia
que fosse clara como a luz do dia
para ser consumida como o pão

Uma poesia assim
agridoce como a fruta do mato,
pura como a água do regato,
melodiosa como uma canção.

Uma poesia assim,
que trouxesse beleza em cada rima,
para ser cantada no trabalho,
para ser batucada na marmita,
para ser comentada nas esquinas.

Uma poesia assim.
comum e popular como a cachaça
que se bebe barato, que é de graça,
que é do rico, do pobre, do sem nome.
Uma poesia que todos entendessem
como todos entendem a palavra amor
ou a palavra fome...


(do livro Canção pro Sol Voltar )

Ilustração: Joaquin Sorolla Y Bastida
Maria pintando ao ar livre

quinta-feira, 23 de abril de 2020

J.J. MACEDO



Rio,
mas o meu riso é um rio 
que não corre mais
 
Rio,
meu riso estio
de margens áridas
e paisagens pálidas
 
Rio,
meu riso extinto,
seco : sertão.
 
J.J. Macedo
(do concurso municipal de poesia da Prefeitura de Guarulhos)
 
ilustração: Maquiagem de Palhaço por John Sloan (1909)  

quarta-feira, 8 de abril de 2020

VALDELI VILA NOVA


São muitos 
os estômagos - ocos
que roncam
Sinfonia inacabada
macabra desassistida
Tu, minha barriga
inimiga
de tantos sonhos
saqueada consumida
desnutrida vida
Diante de ti 
lavo minhas mãos
com o suor oprimido
e derramo minha poesia
sobre projetos e discussões
Olho outros homens mosqueados
que carregam cruzes e lâminas
pelas ruas das fábricas sem vagas
Juntai o resto dos homens
meus irmãos 
e morramos
morramos todos
é para que nunca
tenhamos que repetir coisas
e mastigar cacos
e derramar gargantas
e ferver papéis
e blasfemar
nunca mais
 
do livro " Licença Para a Vida "

quarta-feira, 25 de março de 2020

CASTELO HANSSEN



Quando deito nos braços da Poesia
eu me mudo para um mundo diferente,
onde os seres são todos namorados,
onde os dias são todos feriados,
e onde as tardes são quentes.

Quando eu acordo, sempre está chovendo,
sempre é segunda-feira, a barriga doendo,
e eu saio a trabalhar...
a Poesia vai comigo, lado a lado
me acompanha nos ônibus lotados,
e segue sussurrando aos meus ouvidos
palavras sem sentido.
E eu peço prá ela ir embora,
para não atrapalhar...

Um dia eu fico só e enlouqueço,
e peço a conta e saio por aí..
E gasto o meu dinheiro, muito pouco,
bebendo como um louco,
comendo doces e lendo gibi.

Eu e a Poesia, sempre nos amando,
no asfalto da avenida, nos jardins,
cavalgando nas nuvens, abraçados,
vamos fazer a vida sempre assim..

E eu peço prá Poesia, companheira,
ficar sempre comigo, a vida inteira,
e não me abandonar !

Desculpe, gente, 
eu sonhei novamente ;
é hora de acordar !!!

Castelo Hanssen 
Academia Guarulhense de Letras 
( do livro Canção Pro Sol Voltar )

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

PEDRO DIAS GONÇALVES


Eu sou um ponto perdido no universo das coisas.

Um ponto que mais parece um pedaço de espelho quebrado
e reflete as coisas que estão à sua volta !
 
Eu sou um ponto !
Um ponto inerte e amorfo que se dilui e vira um nada.
Um ponto que não tem o seu ponto de apoio.
Um ponto isolado sem uma linha reta 
para se ligar a outro ponto !
 
Eu sou um ponto ! 
Um ponto que vive só e quieto,
um ponto que viaja na linha do pensamento, 
em busca da razão e nos descaminhos submete-se
a todo tipo de agressão .
 
Eu sou um ponto sensível
que não queria ser espelho..
 
E na lousa negra da vida não ser reflexos de giz,
ter só um ponto branco,
unicamente,
um ponto X.
 
Pedro Dias Gonçalves
(do livro Momentos)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

NELSON ALVES DE CARVALHO


Cresci no sertão agreste
ao lado de flores e espinhos,
sentindo o vento do leste,
dando abrigo aos passarinhos

Um dia tive cortado
meu tronco rente do solo 
em terra, triste, arretado,
perdi meu porte de Apolo,

Dali fui destacado
a golpes de serra e facão
assim me vi transformado
em forte e rijo pilão

Com carne seca e farinha
preparei muito paçoca
sem falar na quirelinha
para a ninhada da choça

O café em côco socado
lata cheia toda semana
de novo, depois de torrado,
voltava à tarefa insana

Limpei arroz do mais belo,
colhido de modo vário,
e fiz, com milho amarelo,
canjica pro "Seu" Vigário

Fui banco dos violeiros
nas belas festas juninas,
descansei os fazendeiros
sinhozinhos, garotos traquinas

Vi festas das suntuosas,
vi cenas de pranto e dor,
vi moças belas, chorosas,
desiludidas de amor.

Foram chegando os moinhos,
fui jogado para um canto,
do desprezo senti os espinhos
mas ninguém notou meu pranto.

Nem assim fui consumido,
já não sou feio pilão,
pois agora estou revestido
e sou móvel de salão...

Nelson Alves de Carvalho

( do livro Antologia : Letra Viva, "Sou Voz")